sexta-feira, 15 de maio de 2009

~ A passarela ~

Estou no meio de uma ponte
Dividido entre o que sou
E a pessoa que quero ser
A ponte aos poucos se dissipa
Suas vigas aos poucos se dissolvem
O futuro velozmente se aproxima
Com fúria insana e maculosa...

Sob o vento meus pés suportam meu peso
Suspenso pela leveza desse momento
Levado como folhas caídas numa tempestade
(Corpo levitado na densidade da consciência)

Um feixe de luz suspensor do pensamento
Na liberdade da abstração involuntária
Estou em queda ou sublimando
Ao longe
O brilho da ponte reluz quando os olhos fecho
Respiro e inspiro cada vez numa profundidade
Mais inocente e sinto medo
Não há onde me agarrar
Em cada suspiro sinto
O futuro chegar
Ainda mais forte, inda mais letal...

Estou no meio de uma ponte
Dividido entre o real e o imaginário
Ainda mais impiedoso comigo.

E se a ponte realmente se for?
Nenhuma dúvida me sustentou o suficiente...

Ao longe, a visão do futuro inacessível e paciente.
E o que vejo?
São olhos gigantes que me perturbam.

Vejo-me chorando d’outro lado
Dividido entre o que sou
E a pessoa que quero ser
Duas pessoas tão distantes e próximas
Eu como terceira finjo indiferença.

A ponte se foi
Agora só a vejo tatuada na lembrança
Meu corpo dista do destino sem entender
Culpa-me.
Sem saber onde estou ou mesmo quando
(Sublime a sensação de sublimar)
Vago perdido a deslizar pelo aéreo.

Um ar que ainda não existe
Um ar que não se respira
É o vazio acumulado que sentimos
Quando se tem no futuro
O sofrer da dor antecipada...

Fatos abstratos presentes na mente
De concreto o furor da covardia
Com a certeza de uma morte dada.

Como a ponte ida um dia seguirei.
Tal como mitologias gregas e romanas
Um dia serei pó
Um punhado de grãos e sementes
Que como ciscos nestes olhos gigantes, vigilantes,
E que tanto me perturbam.
Germinarão... (Pausa)
Outros germinarão outros de mim!

Perturbados no meio de uma ponte
Com dias incertos e o futuro vívido
E falo pelos oprimidos
Pelas pessoas e outras covardes
Que jamais encontraram
ou tentaram encontrar sua nova vida
Com certezas vagas
A caminhar numa ponte desconhecida
Que sequer existe
Nem nunca existiu.
Se é que algo existe...

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